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O kid

Luis Fernando Verissimo

Encontraram-se depois de muitos anos.

- Rui!

- Kid!

- Há quanto tempo!

- Puxa. Anos.

- Você não mudou nada.

- Quié isso. Você é que continua o mesmo.

- Vamos parar de mentir?

- Rá. Vamos.

- Do que foi mesmo que você me chamou?

- Kid. Lembra? Era o seu apelido.

- Engraçado. Não me lembro...

- Velho Kid. O que você faz?

- Eu trabalho com meu sogro. Contabilidade.

- E está indo bem?

- Dá pra viver.

- E aquele seu plano de... de... Como era mesmo?

- Plano?

- Você tinha um plano fantástico para o futuro.

- Não me lembro.

- Velho Kid. Olha, foi um prazer, viu?

- Também, Rui. Bom te ver.

Afastaram-se. Ele tentando se lembrar: que plano fantástico para o futuro seria aquele? Um plano de “Kid”, e ele era o “Kid”. Como pudera se esquecer de que um dia fora o “Kid”? De qualquer maneira, uma coisa ele sabia: não era mais.


A lágrima que não havia

Algumas pessoas perseguem a fama e a glória, os seus 15 minutos de notoriedade, desesperadamente. Outras as recusam, admiravelmente. Dois exemplos:

Um momento tocante na posse do presidente francês Nicolas Sarkozy foi quando, num gesto singelo, ele enxugou com o dedo uma lágrima que brotava do canto de um olho da sua mulher Cecília, obviamente emocionada com a solenidade. Seria uma cena enternecedora, um instante de atenção carinhosa de um marido com a mulher, se não fosse por um detalhe: não havia lágrima alguma saindo do olho da Cecilia. Pouco tempo depois ela se divorciaria de Sarkozy, e pode-se até especular que a falsidade teatral do gesto tenha apressado sua decisão de renunciar não só ao marido fingido como as pompas e os privilégios de primeira-dama. A lágrima simplesmente não estava onde o Sarkozy gostaria que estivesse.

Outro exemplo de quem preferiu a honestidade ao oba-oba foi o daquela soldada americana ferida na invasão do Iraque que resistiu bravamente antes de ser capturada por soldados iraquianos e acabou sendo libertada numa ação espetacular pelos seus colegas. Era uma história feita na medida para a promoção da guerra. Ajudava o fato da moça ser bonitinha e já se especulava que a interpretaria quando fizessem o filme. Só que a história não era verdadeira, como ela própria fez questão de contar, desmentindo as versões cinematográficas e renunciando à celebridade e todos os seus benefícios. Ela não resistira à captura até a última bala, como noticiado, e seu resgate fora de dentro de um hospital, onde era bem tratada por médicos iraquianos. Foi uma heroína, mas não do tipo explorável. E eu nem me lembro do seu nome.


Domingo, 24 de maio de 2009.



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